Quarta-feira, Julho 13, 2005

Ciberdissidência

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Domingo, Fevereiro 13, 2005

A RESPEITO DA LINGUAGEM

O dia inicia com o bom dia. E é na linguagem que o primeiro momento de interação social se confirma. Durante todo o dia, todos os dias, os diferentes sentidos que interpretamos chagam a nós por ela, transformando-nos a cada momento e reinventando-se em nossas ações e criações.
Nas cerimônias religiosas, a linguagem está presente carregada de ideologias, com seus significados particulares e ao mesmo tempo universais. Portas se abrem, rumo à transcendência, através da linguagem ritualística que caracteriza as religiões.
A arte possui linguagem própria. Prima pelo subjetivo, mesmo que às vezes, como, por exemplo, no movimento literário denominado Parnasianismo, busque-se a objetividade. Em algumas manifestações como a música e as artes plásticas a carga de subjetivismo é ainda maior, já que a linguagem não é verbal. No entanto, podemos pensar na seguinte relação: se a linguagem verbal nos dá efeitos de sentido, e não sentidos únicos, e estes são passíveis de interpretação, a aproximação por efeitos pode se dar por estas manifestações ditas subjetivas, tanto quanto pela linguagem verbal.
O que dizer então da literatura, especialmente da poesia? A linguagem poética muitas vezes consegue um nível fantástico de alcance da realidade.
Passagem das horas
Trago dentro do meu coraçãoComo num cofre que se não pode fechar de cheioTodos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigiasOu de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.Álvaro de Campos In Fernando Pessoa, Obra Poética.

Na minha subjetividade de escritor, neste momento, as palavras do poeta, mesmo relidas muitas vezes, demonstram sentimentos inexplicavelmente convergentes. Sempre, porém, diferentes. Será que a sua, de leitor deste trabalho, tem concordância com a minha? Ou, talvez, com a do poeta? Possivelmente em alguns pontos, em algumas lembranças, pensamentos e sentimentos, sim. No entanto, nem eu, nem você, nem Fernando Pessoa ou Álvaro de Campos, que é um ser irreal com o qual dialogamos e que portanto é real no imaginário e imaginário no real, podemos dialogar a não ser com nossas próprias subjetividades, sendo cada um de nós um universo paralelo.
Mas a ciência positivista tem a pretensão, com sua linguagem, de nos afastar do universo paralelo e fazer com que a linguagem seja exata. Com isso, pretende que a dúvida seja suprimida. Como suprimir a dúvida, organizar o universo? A tarefa parece Hercúlea, mas tem encontrado diariamente seguidores fanáticos que rezam pela organização e pela manutenção do poder tal como é. Felizmente, muitos olhos estão se abrindo e aí nos construímos coletivamente, lembrando do refrão de Chico Science: Me desorganizando, posso me organizar. Eu me organizando, posso desorganizar.
As palavras do músico, mais políticas que poéticas, lembram outra dimensão importante da existência humana, onde se dão as lutas de classe. Neste terreno caminha-se pela linguagem como quem pisa em ovos. Caso interessante é o do ex-presidente Brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que ao adotar medidas diferentes do que pregavam seus escritos, pediu simplesmente que fosse esquecido tudo o que ele havia dito. Ou do também ex-presidente, o general João Figueiredo, que em dias de abertura democrática declarou que “Quem for contra a democracia, eu prendo e arrebento!”. Bakhtin considera que a palavra é o fenômeno ideológico por excelência. Se concordarmos com ele, podemos tentar compreender não o que dizem esses ex-presidentes, mas o universo de sentidos que pode estar por trás de suas falas.
Na educação, a linguagem constrói e destrói, ás vezes no mesmo momento. O dito e o não-dito, muitas vezes o já-dito, se refazem a cada dia nas escolas e universidades. Aí percebemos que quem entra em sala de aula não são alunos e professores, mas pais, amigos, igrejas, polícias, governos, nações. Cada qual espelhado nas falas, nos sentidos atribuídos e suprimidos, nos relacionamentos e nas tensões, nas relações de poder e alienação.
Compreender a linguagem e suas implicações tem a distância do infinito, é como se a cada passo dado na compreensão déssemos mil na incompreensão. No entanto, o sentido de compreender passa por esse indissolúvel dilema Shakespeareano / pós-moderno, ser ou não ser. Ou ser o não-ser.
Assim sendo, resta lembrar que a noite termina com boa noite. No entanto, a linguagem nos acompanha em nossos sonhos, enquanto no reinterpretamos e interpretamos, nos desconstruímos para estar em permanente reconstrução.

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

Todo dia

Todo dia, todo santo dia
A inestancável hemorragia
Jorra o sangue do baque seco
Da cabeça aberta contra o dia-a-dia

Quinta-feira, Novembro 11, 2004

Seres Mitológicos

Imaginários no real
Reais no imaginário

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

When the music's over

Turn out the lights

The doors no disco Strange Days

Pobre Diabo (Parte 8 de 8)

PASSADOS trinta e nove dias do início do espetáculo, o sucesso era total. Da baixa burguesia ao alto meretrício, todos queriam saber como seria o final daquele duelo entre o bem e o mal, que já se tornara motivo de discussões em todos os lugares, principalmente depois da morte do Aquiles, dois dias antes, numa óbvia overdose. O fim trágico do competidor foi fruto de uma manobra radical do todo-poderoso. Temendo a derrota, subornou a Acácia, que entrou no programa ao lado do Ubirajara convidando o Aquiles para uma longa noitada a três. Aquiles, após recusar, fraquejou e, antes mesmo de morrer já havia sido desclassificado por ter obviamente enlouquecido. Nesta noite, Diabo ficou dividido: Triste pela morte e fracasso do amigo, mas feliz porque o Adama chamou para si a responsabilidade, passou a noite com os dois e, mesmo com a idade jogando contra, deixou o jovem casal pregado, pedindo mais. Naquela noite de recorde de público, todos tiveram a certeza da vitória do Diabo. Já se falava em uma nova ordem mundial, as bolsas foram às alturas, o Dólar caiu a menos de meio Real e na Cisjordânia teve início um bacanal assombroso entre Judeus e Palestinos. Diabo já se sentia vencedor, dava entrevistas coletivas, anunciava ministros e tudo o mais, quando a terrível notícia chegou: O Adama caíra durante um porre homérico para comemorar a chegada do último dia, e parecia morto do coração. O mundo voltou a ser um inferno. A população, que depois de dois dias na mais completa folia já se acostumara, teve que conviver com o constrangimento de voltar ao normal. Grandes empresários voltaram aos ternos, depois de acostumarem com as saias, padres voltaram ao vestido, depois de se acostumarem aos ternos com os quais conquistaram as mais devassas carolas. Tudo voltou ao normal. O enterro correu de maneira tranqüila, quase desprezada pela grande mídia. Esta só se pronunciou novamente ao interromper a programação normal para uma notícia extra quando o Diabo já se preparava para entrar na clausura: O Adama estava lá, vivinho da Silva, e anunciava a vitória ao lado do coveiro Juvenal, com quem passou a viver o resto de sua vida.

Terça-feira, Outubro 05, 2004

Salir a luchar...

Lutar por acabar com as ilusões acerca de uma situação significa pedir que se acabe com uma situação que precisa de ilusões

Karl Marx em Introdução à crítica da Filosofia do Direito de hegel

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Pobre Diabo (Parte 7 de 8)

POUCOS DIAS antes do início do importante evento, o Diabo corria feito louco para deixar tudo em ordem. Além dos preparativos, que ele apenas supervisionava, já que o Salomão tomou a frente, a principal questão a ser resolvida era o treinamento do Adama e do Aquiles. O regulamento do desafio previa o seguinte: Após os quarenta dias e quarenta noites, ambos teriam de estar vivos, já que a morte de ambos evidentemente denotaria que eles não agüentaram conviver no limite com os excessos e estes são um mal irreparável à humanidade. Além disso, se ambos sobrevivessem teriam de passar por uma avaliação psiquiátrica, afinal um dos tabus a serem quebrados era o de que ninguém consegue viver num mundo de prazeres e excessos, sem religião alguma, sem enlouquecer. Diabo fazia o treinamento acompanhado do Doutor Hans Verrückt, um alemão cheio de conhecimentos em várias áreas, principalmente aquelas relacionadas a sexo, drogas e Rock’n’roll. Percebeu rapidamente que o Adama parecia mais seguro, velho que era nas artes das malandragens. Sabia que, por outro lado, a idade atrapalhava, já que o regulamento previa que em caso de morte o Aquiles teria que segurar a onda sozinho, e isto seria muito mais difícil. Este, por sua vez, tinha a vantagem de ser mais jovem, e agüentar muito mais as baladas na parte física. Mas sua dependência do pó fragilizava e muito sua estrutura psíquica. Diabo tentara várias vezes dizer isso a ele, mas também não podia ser muito insistente para que o outro não percebesse sua contradição diante desse excesso. Ainda assim, o Diabo tinha convicção de que os amigos eram escolados na esbórnia, e saberiam levar a preservação física e psíquica até o fim. Chegado o grande dia, o doutor deu seu OK e o Diabo pensou: Seja o que Deus quiser. A sorte estava lançada.